Mesmo sendo criado dentro da Gávea, como é chamado carinhosamente o Clube de Regatas do Flamengo, tendo começado a freqüentar suas alamedas antes mesmo de andar, o Flamengo continua me surpreendendo.Ao longo dos anos, acreditei ter escutado e visto tudo relacionado ao Flamengo. Os grandes conhecedores da Boca Maldita, os amigos do Beco do Fuxico, os funcionários, os companheiros de chuteiras da Flapel, os amantes da sauna, os corredores do saibro, os amigos que assumiram diretorias, vice-presidências, desafios imensos frente a essa nação emotiva, e todos os que de alguma forma respiram o Flamengo, contribuíram para esse conhecimento, contando centenas de histórias deliciosas.Mesmo assim, o Flamengo continua a me surpreender.
Não me refiro à equipe que entra em campo magnificamente uniformizada, carregando o imortal escudo na camisa, mas sim ao Flamengo intocável, subjetivo, onipresente.
E exemplifico. Meu trabalho me obriga a viajar constantemente, levando-me aos locais mais distantes dos centros urbanos. E nessas viagens me acostumei a presenciar cenas corriqueiras, como os sorrisos estampados nos rostos das crianças, as mãos estendidas para um cumprimento afetivo entre as populações mais carentes, a presença de um cão confiável, grande aliado ao combate da solidão de muitos moradores rurais, e a presença marcante do Flamengo.
E essa se faz das formas mais inusitadas possíveis: o escudo do Flamengo pintado num casco de tartaruga e pendurado na parede ou talhado em uma árvore no quintal de casa, a pequena “montaria”, como os ribeirinhos do norte do Brasil chamam suas pequenas embarcações utilitárias, devidamente pintadas com as cores do clube, tal qual um esquife na imaginação do dono, entre muitas outras representações criativas.
Entre muito do que vi, algumas dessas presenças do Flamengo merecem destaque. A cerca de 10 km da cidade do Oiapoque, no Amapá, descendo o rio em direção ao Cabo Orange, um dos derradeiros limites do país, há uma vila, nos limites dos territórios indígenas de Galibi e Juminá: a vila de Taparabu.
A vila, última habitação não indígena antes dos limites do país naquela região, possui 16 casas, onde habitam 12 famílias, totalizando pouco mais de 70 habitantes, que vivem exclusivamente da pesca, em especial de uma espécie local, a Gurijuba.
Não têm energia elétrica, água tratada, telefone ou fossas. Mas guardam seus tesouros: um gerador, uma antena parabólica e uma TV de 20 polegadas, todos devidamente instalados em uma cabana, logo no início do desfile de casas, em um lugar comunitário, liderado pelo rubro-negro, sr. Moacyr Nascimento.
Nesse local, o gerador mantido em funcionamento com o óleo diesel comprado com a venda dos peixes capturados e salgados, permite que a TV seja ligada das 20 às 21h30hs, para que todos possam acompanhar parte do Jornal Nacional e a novela noturna da Rede Globo. Com uma exceção. Os jogos do Flamengo.
Coincidentemente, no dia em que visitei a comunidade pela primeira vez, durante a tarde de um domingo, os moradores preparavam-se para assistir a uma dessas partidas, situação que evidentemente registrei em fotografias e vídeos.
E havia mais. Em cima da TV, preso à parede de madeira da cabana comunitária, havia um pôster do Flamengo Tricampeão Carioca de 2001. “Mais um tesouro nosso”, disse o sr. Moacyr. Isto é o Flamengo.
Em meio à alegria e imensa euforia da conquista do Bi-Campeonato Carioca de 2008, abraçado aos amigos no Maracanã, por alguns instantes eu me lembrei dos habitantes daquela vila. A imagem de muitos deles, sentados em frente àquela TV, foi imediata. Eu sei que estavam lá. E sei que quebraram o silêncio da floresta com seus gritos e comemorações saudando o clube mais querido do Brasil.
domingo, 4 de janeiro de 2009
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é o melho quando o flamengo entra em campo aconcorrençia sai do meio
ResponderExcluirtocida jovem fla moro e nos sem freio. dl
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